AGENOR CANDIDO

Sobreviver - Conviver - Prosperar

RELATIVISMO

Observo, há muitos anos, teses e mais teses filosóficas, procurando encontrar um lugar onde possa acomodar meu próprio pensamento ou, ao menos, oferecer uma pequena contribuição a esse imenso oceano do conhecimento humano.

No meu caso, a inquietação que diariamente me acompanha repousa sobre a tese do relativismo.

Sem me prender aos conceitos deste ou daquele filósofo que já escreveu sobre o tema, e com todo o respeito devido aos mestres que deixaram suas marcas na história do pensamento, ouso discordar de todos eles em um ponto essencial. Li suas obras com dedicação e profunda admiração. Em todas encontrei fundamentos convincentes, argumentos sólidos e extraordinária capacidade intelectual. Entretanto, justamente pelo cuidado em preservar seus próprios sistemas filosóficos, acredito que acabaram se afastando do eixo central da questão. Talvez por isso me atreva, mesmo sem ser solicitado, a oferecer minha própria reflexão.

No meu entendimento, foi o próprio tempo que se encarregou de reescrever a minuta do relativismo.

Tenho a felicidade de viver numa época em que a informação circula em tempo real. Ela chega de todos os cantos do planeta — das universidades aos calabouços, das academias aos becos do submundo. Essa imensa corrente de informações, somada ao declínio das grandes ideologias, ao surgimento de movimentos sociais independentes e à crescente exigência de transparência por parte da sociedade moderna, expõe diariamente as próprias vísceras da civilização.

No centro desse fogo cruzado permanece a natureza humana.

Ainda somos uma espécie biologicamente jovem, construída sobre a mesma estrutura de carbono que deu origem aos nossos ancestrais. Somos, simultaneamente, o princípio, o meio e o fim de toda construção humana.

Para compreender o relativismo, preciso antes estabelecer um fundamento. Esse fundamento é a própria máquina humana — ou, como costumo chamá-la utilizando uma linguagem contemporânea, o e-humano.

O ser humano distingue-se das demais espécies por duas extraordinárias ferramentas evolutivas: o dedo opositor e um cérebro altamente desenvolvido e compartimentado. Essas características permitiram que ocupássemos o topo da cadeia alimentar. Contudo, diferentemente da maioria das demais espécies, somos capazes de eliminar nossos próprios semelhantes sem qualquer propósito racional, lógico ou de sobrevivência, enquanto os demais animais, em regra, preservam sua própria espécie.

Foi essa criatura contraditória que construiu a sociedade.

Percorremos sucessivos estágios literários, filosóficos, religiosos, culturais, econômicos, sociais, jurídicos, políticos, ideológicos; atravessamos revoluções, impérios e guerras, até chegarmos ao século XXI.

Dentro desse enorme cenário, uma única palavra destaca-se acima de todas as outras: dinheiro.

Observo, com curiosidade, o enorme esforço realizado por muitos pensadores, inclusive nos maiores centros acadêmicos e nas sociedades mais desenvolvidas, para negar ao dinheiro sua posição central na organização da civilização.

É justamente nesse ponto que nasce minha interpretação do relativismo.

Considero o dinheiro não como um fim em si mesmo, mas como o eixo em torno do qual gira uma sociedade organizada. Assim como uma máquina necessita de engrenagens perfeitamente dimensionadas, a sociedade necessita de um eixo capaz de harmonizar suas diversas estruturas.

O dinheiro exerce essa função.

Não deve ser tratado como pecado, tampouco como divindade. Deve ser compreendido como instrumento de relacionamento entre todos os demais valores humanos.

Tudo, em maior ou menor medida, acaba tornando-se relativo ao dinheiro, não porque ele seja moralmente superior, mas porque representa a linguagem universal através da qual a humanidade organiza produção, riqueza, troca, desenvolvimento e sobrevivência.

Talvez, um dia, exista uma única moeda mundial. Não por imposição política, mas como consequência natural da integração da humanidade.

A crescente transparência internacional demonstra que a riqueza produzida pertence, em última análise, à própria humanidade.

Agenor Candido Gomes
17 de maio de 2017


Atualização — Agosto de 2026

Hoje, quase uma década depois, releio estas reflexões sem retirar uma única vírgula de minhas convicções fundamentais. Ao contrário, o tempo apenas fortaleceu aquilo que, em 2017, ainda parecia mera hipótese.

Com serenidade, reconheço também o privilégio de ter convivido com homens que enxergavam muito além de sua época.

Recordo-me de quando, em 1994, o Dr. Roberto Campos mandou buscar-me em Rio Bonito (RJ) para o lançamento de seu livro A Lanterna na Popa. Naquele evento, diante de uma plateia repleta de autoridades, pediu que todos aplaudissem “o único pobre que conhecia e que era mais capitalista do que ele”.

Naquele instante considerei suas palavras um evidente exagero. Não me cabia julgá-las. Somente muitos anos depois comecei a compreender a profundidade daquele comentário.

As transformações tecnológicas ocorridas nas últimas décadas alteraram profundamente a relação entre capital, trabalho e produção.

A automação, a inteligência artificial e a robótica caminham para reduzir drasticamente a necessidade de mão de obra desqualificada em praticamente todos os setores da economia. Essa realidade impõe desafios inéditos à humanidade e exige novas formas de organização econômica e social.

Nesse contexto, fortaleceu-se em mim a convicção de que o dinheiro continua sendo um dos principais instrumentos de coordenação da vida econômica, embora não constitua, por si só, a finalidade da existência humana.

O verdadeiro patrimônio da humanidade não é o ouro, nem a moeda, nem qualquer riqueza material.

É o conhecimento.

Toda a riqueza existente sobre a Terra nasce, direta ou indiretamente, da inteligência humana acumulada ao longo dos séculos.

Nenhum indivíduo cria riqueza isoladamente. Toda inovação repousa sobre o trabalho, a ciência, a cultura e a experiência legadas pelas gerações anteriores.

Por essa razão, considero que a riqueza, em sua essência, pertence à humanidade.

À medida que os problemas tornam-se globais — mudanças climáticas, migrações, pandemias, inteligência artificial, segurança internacional e economia digital — cresce também a necessidade de instituições internacionais mais eficientes e capazes de coordenar respostas comuns. Essa percepção leva muitos pensadores a defenderem formas mais amplas de governança global, tema que continuará sendo objeto de intenso debate nas próximas décadas.

O capitalismo continua avançando.

A globalização, embora sofra resistências, também.

As transformações serão profundas e inevitavelmente produzirão vencedores e perdedores. A história demonstra que nenhuma grande mudança ocorreu sem custos sociais significativos.

Espero, contudo, que a humanidade seja capaz de reduzir esses custos por meio da ciência, da cooperação internacional e da racionalidade política, evitando que conflitos e crises humanitárias se tornem o preço inevitável do progresso.

Hoje, compreendo que a lógica da civilização não reside propriamente no dinheiro.

O dinheiro é consequência.

O verdadeiro eixo do desenvolvimento humano é o conhecimento.

Quanto maior o conhecimento, maior a capacidade de gerar riqueza, prosperidade, liberdade e dignidade.

É nesse ponto que meu conceito de relativismo permanece inalterado: todas as grandes estruturas humanas relacionam-se entre si; nenhuma existe isoladamente. O dinheiro continua sendo uma engrenagem indispensável dessa máquina, mas sua força deriva do conhecimento que o produz e da liberdade que lhe dá sentido.

As estrelas que ontem pareciam inalcançáveis começam, pouco a pouco, a aproximar-se das mãos da humanidade.

Que avancemos com liberdade, responsabilidade e inteligência.

Viva o conhecimento.

Viva a liberdade.

Viva o capitalismo.

E viva o relativismo.

Deixe comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos necessários são marcados com *.