A ilusão de que modelos universais podem resolver problemas Nacionais internos

Assisti recentemente a uma publicação na internet que despertou meu interesse. Tratava da cultura das nações e de como as diferenças culturais determinam a maneira pela qual os povos compreendem, aceitam e exercem o poder. Como quase tudo que observo tem por finalidade tentar compreender e prospectar caminhos para a nossa nação continental, o conteúdo me levou a uma reflexão particularmente interessante.

O entrevistado, que se apresentava como missionário, estabeleceu uma distinção entre ditadura e autoritarismo, argumentando que não são necessariamente a mesma coisa e que os regimes políticos precisam ser compreendidos dentro das circunstâncias históricas e culturais de cada povo. Percorreu exemplos da Rússia, China, Irã, Estados Unidos, França, Índia e outras nações, relacionando suas estruturas de poder às respectivas religiões, ideologias, tradições e características dos povos nativos.

Sua argumentação era contundente: conceitos aparentemente universais assumem significados completamente diferentes quando transplantados de uma cultura para outra.

A observação me pareceu tão pertinente que resolvi deslocar esse olhar para dentro de nossas próprias fronteiras. Afinal, se as nações não podem ser compreendidas exclusivamente por modelos políticos importados, por que imaginar que o Brasil, com sua dimensão continental e suas profundas diferenças regionais, poderia ser interpretado como uma sociedade culturalmente homogênea?

O BRASIL NÃO É UM PAÍS DE UMA ÚNICA CULTURA.

Tomando como referência o cenário da eleição presidencial de 2026, procurei observar o comportamento eleitoral sob uma perspectiva que ultrapassa a simples disputa entre candidatos. O que se apresenta é uma sociedade cuja divisão política parece encontrar raízes muito mais profundas nas identidades regionais, nas experiências sociais e nas referências culturais de sua população.

A polarização brasileira não nasceu exclusivamente dos partidos, tampouco dos candidatos. Os partidos e seus discursos, em grande medida, exploram divisões que já encontram terreno fértil na própria sociedade.

O Norte e o Nordeste demonstram uma identificação eleitoral mais expressiva com Lula, enquanto o Sul e parte do Sudeste apresentam maior aproximação com o campo político representado por Flávio Bolsonaro. O Centro-Oeste, por sua composição demográfica e pela presença de populações oriundas de diferentes regiões, apresenta uma configuração própria, que não deve ser confundida com neutralidade política.

É preciso, entretanto, não transformar tendências eleitorais em verdades absolutas. O voto não obedece a fronteiras culturais rígidas. Mas ignorar a influência dessas fronteiras é igualmente um erro.

MINAS GERAIS: O VOTO E A IDENTIDADE.

Um aspecto particularmente interessante é o comportamento eleitoral mineiro. A influência cultural e política de suas fronteiras, especialmente a proximidade com a Bahia, merece investigação, embora não possa ser apontada, isoladamente, como explicação para o resultado eleitoral.

Minas Gerais tem uma personalidade política singular. É conservadora em determinados valores, progressista em algumas circunstâncias, desconfiada diante das rupturas e historicamente inclinada à negociação. O mineiro parece carregar, na própria formação cultural, a habilidade de conciliar contradições.

É o território do acordo, da ponderação e, por vezes, da indecisão estratégica.

Também chama a atenção a contradição presente na representação política: uma sociedade que elege representantes de diferentes origens e posições ideológicas, mas que continua convivendo com manifestações de intolerância racial e social. Quando uma personalidade pública, independentemente de sua origem ou posição, manifesta aversão a pessoas por sua cor, temos diante de nós uma contradição que merece ser denunciada. O preconceito não se torna aceitável por mudar de endereço ideológico.

DOIS CANDIDATOS, DUAS NARRATIVAS E UM PAÍS DIVIDIDO.

A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro também pode ser interpretada à luz daquela entrevista.

De um lado, Lula encontra sua força política no discurso social, no assistencialismo, na identificação com os mais vulneráveis e na narrativa da desigualdade histórica. Sua trajetória pessoal e política é frequentemente apresentada como símbolo de superação e representação dos excluídos. Entretanto, essa construção convive com o desgaste provocado pelos escândalos de corrupção associados a seu partido e aos governos que o antecederam.

Do outro lado, Flávio Bolsonaro procura se apresentar como representante de uma agenda de segurança pública, fortalecimento das Forças Armadas, desenvolvimento econômico e prosperidade. Sua identificação com o universo conservador e com o legado político do pai constitui um ativo eleitoral, mas também carrega as controvérsias e os questionamentos que acompanham o bolsonarismo, inclusive as acusações relacionadas à milícia.

São duas narrativas que disputam muito mais do que o voto: disputam a interpretação que cada parcela da sociedade faz do próprio Brasil.

E aqui está uma questão fundamental: não basta perguntar qual candidato tem razão. É necessário compreender por que milhões de brasileiros encontram razões diferentes para acreditar em cada um deles.

A NOVA POLÍTICA NASCEU NAS REDES, MAS O PODER AINDA RESIDE NOS PARTIDOS.

Outro fenômeno merece atenção: a eleição de jovens congressistas com expressivas votações, muitos deles construindo sua trajetória e popularidade nas redes sociais.

Não se trata de um detalhe tecnológico. Estamos diante de uma transformação na representação política. A comunicação deixou de depender exclusivamente dos partidos, dos grandes veículos de imprensa e das estruturas tradicionais de campanha.

O cidadão passou a encontrar seus representantes diretamente, sem a necessidade de intermediários.

Essa mudança coloca em evidência uma discussão que considero indispensável: o voto distrital.

Entretanto, é preciso cuidado. O voto distrital pode aproximar o representante de sua comunidade, mas não deve ser utilizado como instrumento para neutralizar a força dos novos protagonistas políticos ou devolver o poder exclusivamente aos dirigentes partidários.

O verdadeiro debate deveria ser outro: como democratizar a representação, aproximar o eleitor do eleito e impedir que as estruturas partidárias se apropriem da vontade popular?

Afinal, não adianta modernizar a comunicação se a distribuição do poder continua submetida aos mesmos mecanismos de controle.

TRÊS PODERES, UMA CONSTITUIÇÃO E UMA REPRESENTAÇÃO EM CRISE.

Nossa Constituição, frequentemente apresentada como fundamento da democracia brasileira, também precisa ser objeto de reflexão crítica. O ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa já apontou, em diferentes ocasiões, problemas e deficiências do texto constitucional e de sua aplicação.

O problema, entretanto, não está apenas na Constituição. Está, sobretudo, na distância entre aquilo que ela estabelece e aquilo que as instituições efetivamente praticam.

Quando a Suprema Corte é questionada por suas decisões, quando o Executivo parece governar mais em reação às exigências do Congresso do que a partir de um projeto próprio e quando os interesses partidários se sobrepõem ao interesse público, a democracia passa a enfrentar um problema de legitimidade.

O Executivo negocia sua sobrevivência política, o Legislativo disputa espaços de poder e o Judiciário assume protagonismo crescente. Nesse ambiente, o cidadão, que deveria ser o verdadeiro titular da soberania, frequentemente se transforma em espectador de decisões tomadas em seu nome.

É uma inversão preocupante: as instituições deveriam servir à sociedade, mas a sociedade parece cada vez mais convocada a servir à preservação das instituições e de seus ocupantes.

A CULTURA LOCAL NÃO ACEITA SOLUÇÕES UNIVERSAIS.

Chego, então, à reflexão que considero mais importante.

Ditadura, democracia, autoritarismo, socialismo, comunismo, teocracia, anarquismo, liberalismo, conservadorismo, monarquia, integralismo e trabalhismo são conceitos que carregam significados históricos, filosóficos e políticos. Entretanto, sua aplicação não produz necessariamente os mesmos resultados em sociedades diferentes.

O que em determinada cultura representa liberdade, em outra pode ser interpretado como desordem. O que para um povo significa justiça social, para outro pode significar dependência do Estado. O que uma sociedade considera autoridade legítima, outra pode compreender como opressão.

Não existe, portanto, uma fórmula política capaz de atender indistintamente a todas as nações. A tentativa de importar modelos sem considerar a formação cultural, a história, a economia e os valores locais pode produzir instituições artificiais, incapazes de responder às necessidades reais da população.

E o Brasil é um exemplo extraordinário dessa complexidade.

Somos uma nação de dimensões continentais, construída por povos, tradições, crenças e experiências econômicas distintas. Pretender governar essa diversidade com uma cartilha ideológica, seja ela de direita ou de esquerda, é desconhecer a própria natureza do país.

A questão não é descobrir qual ideologia é universalmente correta. É compreender em que circunstâncias cada pensamento pode contribuir para uma sociedade melhor.

Talvez todos tenham alguma razão em seus argumentos, mas nenhum tenha, isoladamente, a solução.

CONCLUSÃO: ANTES DE IMPORTAR IDEIAS, PRECISAMOS COMPREENDER QUEM SOMOS.

Pintei um quadro aparentemente pouco animador do Brasil. Mas talvez o problema esteja justamente na maneira como insistimos em olhar para ele.

Continuamos procurando respostas em modelos estrangeiros, reproduzindo disputas ideológicas e tentando enquadrar uma sociedade plural em conceitos que nem sempre correspondem à sua realidade.

A cultura global pode oferecer conhecimento, tecnologia, experiências e referências. Mas não pode substituir a compreensão da cultura local.

Globalizar o conhecimento é uma virtude. Globalizar soluções sem respeitar as diferenças é uma presunção.

Uma nação não se constrói pela simples reprodução de experiências alheias, mas pela capacidade de interpretar sua própria realidade e encontrar respostas compatíveis com ela.

O Brasil não precisa escolher entre copiar a direita ou copiar a esquerda. Precisa aprender a pensar com a própria cabeça.

Afinal, não é a cultura que deve se adaptar cegamente à ideologia. É a ideologia que precisa demonstrar sua capacidade de conviver com a cultura.

E talvez esteja aí a maior lição: o mundo pode ser global, mas a vida, a identidade e as necessidades dos povos continuam sendo essencialmente locais.

Agenor Candido Gomes 04|11|2026

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