O ÚLTIMO DEBATE NÃO FOI UM EMBATE — E CERTAMENTE DEU EMPATE

O último debate não foi propriamente um embate. Foi, antes, um empate de insuficiências. Cada candidato falou para o seu público, cada qual procurou atingir o adversário, e o Brasil, mais uma vez, ficou à espera de respostas.
Na minha percepção, Lula conseguiu estabelecer uma conexão maior com o eleitorado das classes D e E, enquanto Flávio Bolsonaro pareceu encontrar maior receptividade entre parcelas das classes C e A. Ambos, entretanto, cometeram o mesmo equívoco: tentaram matar a vaca, quando o verdadeiro problema era a infestação de carrapatos.
A metáfora é simples, mas o problema não.
O Brasil enfrenta uma crise conjuntural, sustentada por distorções históricas, culturais, educacionais e institucionais. Explicar essa realidade é uma necessidade; compreendê-la, porém, exige disposição para ir além das aparências. É justamente aí que a hipocrisia permanece intacta: de um lado, o balanço do que foi feito e do que deixou de ser feito; do outro, a promessa interminável, sem que se apresente, com clareza, como ela será cumprida.
Como defensor do capitalismo e representante de mim mesmo no segmento empresarial, gostaria de assistir a um debate em que os candidatos apresentassem um verdadeiro plano de Estado, dotado de coerência organizacional, fundamento lógico e objetivos de longo prazo.
Não me bastam promessas de campanha. O país precisa de um projeto que sobreviva aos mandatos e que reconheça a interdependência entre educação, economia, cultura, administração pública e desenvolvimento social.
O debate não me satisfez. E, entre tantas lacunas, uma me pareceu particularmente reveladora: a falta de profundidade com que foi tratado o ensino integral. É sobre esse tema que pretendo me deter, pois nele encontro a origem de inúmeros desdobramentos da crise brasileira.
Educação: o princípio, o meio e o fim
O ensino integral — ou, em sentido mais amplo, a educação — é muito mais complexo do que a abordagem superficial que costuma receber nos debates eleitorais.
Não se trata apenas de manter crianças e jovens mais tempo dentro da escola. Trata-se de definir o que ensinar, como ensinar, para que ensinar e, sobretudo, como transformar o conhecimento em capacidade de pensar, produzir, conviver e prosperar.
A educação é o princípio, o meio e o fim de uma sociedade que pretenda se desenvolver de maneira consistente. É por isso que considero preocupante a dificuldade dos candidatos de demonstrar uma visão multidisciplinar dos problemas nacionais. Os temas são apresentados como se fossem compartimentos isolados, quando, na realidade, todos se comunicam.
Não há desenvolvimento econômico sustentável sem educação de qualidade. Não há cidadania plena sem formação crítica. E não há administração pública eficiente quando aqueles que a dirigem não conseguem compreender a relação entre as diferentes áreas do conhecimento.
O problema começa quando a educação deixa de ser um projeto de Estado e passa a servir como instrumento de disputa política.
O diploma não é um certificado de competência
O presidente Lula, a meu ver, insiste em alimentar a oposição entre uma suposta elite e os mais pobres, como se o desenvolvimento de uns dependesse necessariamente do fracasso dos outros. É uma simplificação conveniente para o discurso político, mas insuficiente para compreender a realidade brasileira.
O país precisa de oportunidades, mobilidade social e instituições que funcionem. Precisa, sobretudo, abandonar a crença de que um diploma, por si só, garante sucesso profissional ou realização pessoal.
Não garante.
Conheço motoristas de Uber que são advogados, professores que complementam a renda fazendo entregas pela Shopee e inúmeros diplomados que não conseguem exercer as profissões para as quais se prepararam.
Conheço também uma sobrinha que levou dez anos para ingressar na faculdade de Filosofia. Mais tarde, submeteu-se a um teste vocacional cujo resultado apontou para a gastronomia. Hoje, é chef em um importante restaurante na França.
O que essa história nos ensina?
Não que estudar seja inútil, tampouco que a formação universitária deva ser desprezada. Ensina que educação e vocação precisam dialogar; que a formação profissional deve considerar as aptidões individuais e as necessidades da sociedade; e que não podemos confundir escolarização com competência, nem diploma com destino
.
Quando a orientação educacional falha, quando a formação não encontra correspondência nas oportunidades de trabalho e quando o poder público não consegue articular ensino e desenvolvimento, o prejuízo ultrapassa a esfera individual. A conta chega à sociedade e, particularmente, aos contribuintes que financiam o sistema.
É legítimo, portanto, perguntar quanto custa ao país manter um modelo que, em muitos casos, não consegue aproximar o investimento em educação dos resultados que a sociedade espera.
Menos centralização, mais responsabilidade
Há outra questão que considero fundamental: a organização das responsabilidades educacionais.
No Brasil, a Constituição distribui competências entre União, estados e municípios. A União atua, entre outras atribuições, na coordenação da política nacional e na manutenção das instituições federais de ensino; os estados concentram responsabilidades importantes no ensino médio; e os municípios atuam prioritariamente na educação infantil e no ensino fundamental.
Essa estrutura, entretanto, merece ser discutida à luz da realidade local.
Defendo que os municípios tenham protagonismo muito maior na organização da educação, porque é no território municipal que as demandas se manifestam de maneira concreta. É ali que se conhecem as famílias, as condições sociais, as necessidades profissionais e as particularidades econômicas de cada comunidade.
Isso não significa ignorar a necessidade de financiamento nacional, de padrões de qualidade ou de cooperação entre os entes federativos. Significa questionar a centralização excessiva e defender uma administração mais próxima do cidadão, com responsabilidades claras e mecanismos efetivos de avaliação.
A máxima de que quanto menos governo, melhor, frequentemente associada ao pensamento liberal, merece ser compreendida com cuidado. Não se trata de eliminar o Estado, mas de evitar que ele faça mal aquilo que poderia ser realizado com maior eficiência por estruturas mais próximas da população.
Descentralizar não é abandonar. É atribuir responsabilidades, cobrar resultados e permitir que a realidade local participe das decisões.
O ensino integral, nesse contexto, deveria representar uma oportunidade de integração entre formação acadêmica, cultura, ciência, tecnologia, esporte e preparação para o trabalho. Não basta ampliar a permanência na escola; é necessário dar sentido ao tempo, ao conteúdo e ao investimento.
A política e a fabricação da esperança
Se a educação revela a profundidade de nossos problemas, a política expõe outra contradição: a facilidade com que a esperança se transforma em capital eleitoral.
Flávio Bolsonaro, assim como outros representantes de famílias politicamente influentes, chega ao debate amparado por uma estrutura política que merece ser examinada criticamente. A presença de diferentes integrantes de uma mesma família em cargos eletivos levanta questões legítimas sobre a renovação da representação, a concentração de influência e a capacidade de os partidos formarem novas lideranças.
Mas a pergunta mais importante não é apenas quem são essas pessoas ou de onde vêm. É por que conseguem mobilizar tantos eleitores.
A resposta passa, em parte, pela expectativa de mudança.
Jânio Quadros, Juscelino Kubitschek e Fernando Collor, cada um em seu contexto histórico e com trajetórias muito distintas, demonstram como a política brasileira pode ser movida por expectativas de ruptura, modernização ou renovação. O eleitor, muitas vezes, não escolhe apenas um programa: escolhe também uma esperança, uma reação ao presente ou uma promessa de que o futuro será diferente.
Isso não significa equiparar esses personagens, nem reduzir suas trajetórias a um único motivo. Significa reconhecer que a insatisfação com o cenário vigente pode favorecer alternativas cuja força eleitoral nem sempre corresponde à consistência de suas propostas.
A esperança é legítima. O problema começa quando ela substitui a análise.
Nelson Rodrigues, com sua conhecida ironia sobre a condição humana e a vida pública brasileira, oferece uma lente provocadora para observar nossas contradições. A política, contudo, não pode se limitar ao diagnóstico dos absurdos. Precisa criar condições para superá-los.
Uma República em desacordo consigo mesma
Volto, então, ao ensino integral, porque foi por ele que escolhi examinar a questão nacional.
A educação não é o único problema do Brasil, mas é um dos caminhos indispensáveis para compreender os demais. A crise é cultural, educacional e, sem dúvida, conjuntural. É também institucional.
A República parece ter perdido a capacidade de coordenar suas próprias instituições. Executivo, Legislativo e Judiciário, cada qual com suas atribuições constitucionais, deveriam compor um sistema de equilíbrio e cooperação. Quando os conflitos se tornam permanentes e os interesses particulares se sobrepõem ao interesse público, a confiança da sociedade se deteriora.
Não afirmo que as instituições tenham deixado de existir, mas que sua credibilidade e sua capacidade de produzir respostas satisfatórias estão submetidas a uma prova severa.
Nesse cenário, qualquer candidato que vença a eleição terá diante de si um desafio muito maior do que derrotar o adversário. Precisará demonstrar capacidade de governar, articular competências, respeitar as instituições e apresentar resultados que possam ser medidos para além da propaganda.
É por isso que receio que, independentemente de quem vença, pouca coisa mude de maneira estrutural se continuarmos escolhendo governantes sem exigir deles uma compreensão integrada do país.
O analfabetismo do século XXI não se resume à incapacidade de ler ou escrever. Pode também se manifestar na dificuldade de interpretar a realidade, relacionar conhecimentos, reconhecer causas e consequências e formular soluções coerentes.
É possível ter diplomas e permanecer intelectualmente despreparado para os desafios de uma nação.
Ao final do debate, Flávio Bolsonaro encerrou sua participação com um apelo a Deus. E eu, que não dispenso a reflexão nem mesmo diante da ironia, termino reconhecendo que há momentos em que a perplexidade nacional nos leva a recorrer à fé.
Que Deus nos ajude — com ou sem Pai-Nosso.
Mas que não nos faltem, sobretudo, educação, lucidez e responsabilidade. Porque nem a fé substitui o planejamento, nem a esperança dispensa o trabalho, nem o voto nos exime de pensar.
E, se o último debate terminou em empate, que ao menos nos sirva de advertência: o Brasil não precisa apenas de um vencedor. Precisa de um projeto de país.